Identidade e pertinência

Pertenencia é o sentimento de fazer parte da cidade, de se identificar com ela.

 
O sentimento de identidade e pertenencia é fundamental numa cidade.

Pertenencia, no original espanhol, é muito mais do que participação. A participação está voltada para uma coisa política, reivindicatória. Pertenencia é o sentimento de fazer parte, de ser parte da cidade. Com a identidade, é possível avançar muito mais na cidadania do que por um simples processo reivindicatório.



Os cidadãos têm, mais que uma capacidade, uma necessidade vital de criar seus mapas mentais, memorizando as fachadas, os luminosos, os acidentes geográficos, as cores. São sinais de identidade com o espaço, são marcos referenciais de paisagem.

Em Curitiba, com o Plano Diretor implantado a partir de 1971, investimos nestes marcos. Utilizamos o espaço urbano como a transformação objetiva do plano, sua materialização. Assim, a circulação foi decidida com a equação anel viário + transporte público.

As vias estruturais e o sistema trinário de transporte precisavam de uma arquitetura complementar, marcante, que foi definida no veículo: o ônibus expresso, de 1974, vermelho, o “metrô de superfície” de Curitiba, porque não havia recursos para a implantação do trem subterrâneo. A ele se seguiram os ônibus articulado e biarticulado, além do ônibus cinza da Linha Direta, o popular "Ligeirinho", moderno, confortável e de poucas paradas em nome da rapidez do trajeto, nas estações-tubo.

Elas permitem o embarque em nível e o acesso dos deficientes e das pessoas com dificuldades de locomoção, com um elevador especial. O bom desenho, igual para toda a cidade, é o sinal de respeito à população. E quando os cidadãos assumem um ícone, ele se perpetua.

Respeito é a palavra que define também a delimitação, em 1971, do Setor Histórico de Curitiba, com as edificações mais antigas do centro da cidade. Forte componente da identidade e do sentido de pertenencia, bem como a Rua XV de Novembro, a principal de Curitiba.

Fechada ao tráfego de veículos em 72 horas e transformada em calçadão, o primeiro do país, tornou-se Rua das Flores, pronta para a arte do encontro e das trocas entre os cidadãos. Sempre a rua, abrigando o transporte de massa e aproximando, pelos caminhos, as pessoas; resgatando o início da vida em qualquer cidade, com a solidariedade do caminhar sem pressa, dos dois dedos de prosa em torno do cafezinho, da sala de visitas transportada de casa para o espaço coletivo.

Outro marco foi o caminhão verde, que anuncia sua chegada pelas badaladas de um sino. É o veículo coletor do Lixo que não é Lixo, uma equação de co-responsabilidade, uma causa compartilhada com a população desde 1989. A separação do lixo doméstico pelos seus geradores - cada cidadão, em suas casas e locais de negócios - foi a ecologia encarada com solidariedade, sem maniqueísmo.

Gerou negócios, com o encaminhamento do material reciclável para indústrias do ramo e com toda uma rede de catadores de papel. É gente que “vive do lixo”, mas em sua acepção de moeda, cambiável por cestas básicas de alimentos, material escolar, chocolates de Páscoa, panetones de Natal, brinquedos para as crianças carentes.

Na Curitiba de 1971, só havia um parque público implantado, o Passeio Público, de 1886. A cidade fechou o século XX e ingressou no terceiro milênio com uma rede de 28 parques e bosques públicos municipais. A origem deste boom foi uma decisão histórica que preferiu preservar grandes reservas de área a loteá-las em busca da maior arrecadação momentânea de impostos. Os parques aliam saneamento a lazer cultural, cada um com sua característica.

Entre eles, por exemplo, os memoriais étnicos que falam da pluralidade da formação humana, envolvendo desde os primeiros colonizadores portugueses até os imigrantes chegados em massa no século XIX, especialmente alemães, poloneses, italianos e ucranianos.

A cidade vai atrás do trilho e da memória. Vai atrás do trilho do transporte. Do trilho - ou da trilha - e da memória. Qualquer cidade. Induzir o crescimento dessa cidade através do transporte e ancorar o futuro na memória, na identidade, é estar no caminho certo.